Monitoramento sanitário em filhotes de arara azul




MONITORAMENTO SANITÁRIO EM FILHOTES DE ARARA-AZUL-GRANDE (Anodorhynchus hyacinthinus) DE VIDA LIVRE DO PANTANAL-MS

MARIANGELA DA COSTA ALLGAYER
Doutoranda em Genética e Toxicologia Aplicada, Universidade Luterana do Brasil – ULBRA, Canoas RS
Orientadora: Dra. Tania de Azevedo Weimer


A perda global da diversidade biológica afeta o bem estar animal e humano. A destruição e fragmentação de habitats, a extinção de espécies, o tráfico ilegal, a importação e exportação de animais, a criação em cativeiro de espécies nativas e exóticas, a agropecuária, a avicultura industrial, a manutenção de aves silvestres como animais de companhia, entre outros impactos, conduziram à alteração na disseminação das doenças, ao acúmulo de contaminantes tóxicos e à invasão de espécies exóticas.
Coleta de material para estudo de sanidade. 
Foto: Cézar Corrêa
Assim, novas doenças estão aparecendo e doenças que estavam controladas estão ressurgindo.

A presença de enfermidade em indivíduos e populações pode ser um indicador da saúde do meio ambiente, incluindo seus impactos locais e globais e as mudanças no ecossistema. Frente a esta realidade, é de extrema importância que a Medicina Veterinária trabalhe para a proteção da biodiversidade, estudando as implicações das mudanças ambientais na saúde humana e animal.

A conservação da biodiversidade e de ecossistemas saudáveis é extremamente necessária para a saúde dos indivíduos, das populações humanas e das demais espécies encontradas na natureza. Profissionais reconhecem as ameaças das doenças transmissíveis e não transmissíveis na conservação da biodiversidade, sendo que este fator, de suma importância para a sobrevivência das espécies, esteve sempre atrelado às pressões humanas sobre os recursos naturais, que causam alterações em diferentes escalas, com impactos diretos e indiretos na saúde dos animais. Essas mudanças incluem, por exemplo, a explosão demográfica da população mundial, que resulta na fragmentação e na degradação dos habitats, a caça predatória, o isolamento de espécies e populações e o aumento da proximidade entre as comunidades humanas e seus animais domésticos. Como conseqüência desses múltiplos estresses ambientais ocorrem certas doenças emergentes, desestabilização de cadeias tróficas e efeitos danosos tanto na saúde de populações silvestres, como na ecologia dos habitats fragmentados. 

 
Mariângela Allgayer, em 1º plano, veterinária do Projeto Arara Azul. 
Foto: Márcia Cziliuk
Mariângela coletando material dos filhotes para exame sanitário. 
Foto: Cézar Corrêa

Uma das questões mais relevantes no contexto atual é a conservação do meio ambiente, em especial a biodiversidade e o patrimônio natural. Uma das ferramentas crescentes em importância para a conservação desta biodiversidade é a "Medicina da Conservação", em outras palavras, o trabalho médico-veterinário aplicado aos conceitos e necessidades conservacionistas. Neste contexto, o estudo das enfermidades infecciosas afetando animais selvagens ganha especial relevo, uma vez que sabidamente as doenças exercem importante e crescente impacto sobre as populações nativas e mantidas em cativeiro.

No Brasil, em virtude de sua magnífica biodiversidade e do estado delicado em que muitas espécies animais se encontram, é urgente a implementação de pesquisas, além do apoio às já existentes, que investiguem a ocorrência natural de patógenos e suas correspondentes enfermidades. Atualmente, com a constante ação antrópica sobre o meio ambiente e a conseqüente degradação da natureza, a compreensão dos processos naturais das doenças em animais, suas dinâmicas e impactos nas populações selvagens, é uma ferramenta valiosa em prol da conservação de nossa riquíssima biodiversidade.

No Brasil, cerca de 20 % dos psitacídeos brasileiros encontram-se ameaçados de extinção. A Anodorhynchus hyacinthinus encontra-se nesta lista, mas sua situação começou a mudar com as atividades do Projeto Arara Azul no Pantanal-MS, que desde 1990, sob coordenação da bióloga Neiva Maria Robaldo Guedes, vem contribuindo para a conservação da espécie na natureza com as pesquisas sobre os conhecimentos básicos da biologia da espécie: alimentação, reprodução, competição, habitat, comportamento, sobrevivência e mortalidade de filhotes, ninhos, predação, enfermidades, movimentação e ameaças que estavam reduzindo a população silvestre. Com estes resultados de campo tiveram início às atividades de manejo de cavidades, instalação de ninhos artificiais, manejo de ovos e filhotes para aumentar a população reprodutiva e o número de filhotes que sobrevivem e voam a cada ano. 

 
Mariângela fazendo monitoramento sanitário com Dra. Tânia.
Foto: Márcia Cziliuk
Médica veterinária Mariângela Allgayer fazendo coleta de material biológico dos filhotes.
Foto: Márcia Cziliuk

Hoje a arara-azul-grande é um dos psitacídeos brasileiros ainda ameaçados, mas com boa perspectiva de sobrevivência em longo prazo. Vários estudos foram e estão sendo realizados com esta arara e uma série de conhecimentos sendo adquiridos sobre a espécie em vida livre. Dentro destes estudos vale a pena ressaltar a necessidade de aquisição de dados relacionados à sanidade desta espécie, pois durante os 15 anos do projeto poucos foram às pesquisas direcionadas ao monitoramento sanitário. Dentre elas podemos citar os relatos associados à infestação por larvas de Philornis sp. (GUEDES et al., 2000), pesquisa de endoparasitos (ARAÚJO et al., 2000; ALLGAYER et al., 2004a), estudo preliminar da microbiota de orofaringe e cloaca (CHAVES et al., 2000), detecção de Salmonella Bredney em vísceras (VILELA et al., 2001), epidemiologia da Chlamydophila psittaci (RASO et al., 2003) e pesquisa de hemoparasitos (ALLGAYER et al., 2004b).

O estudo da ecologia desta espécie associada às pesquisas direcionadas ao monitoramento sanitário é vital para sua conservação, pois possibilitará um conhecimento do estado sanitário da população de vida livre da arara-azul-grande do Pantanal e permitirá estabelecer os patógenos transmitidos pelo homem e animais domésticos que possam afetar a saúde de indivíduos e populações. 

Médica veterinária Mariângila fazendo o 
processamento do material coletado dos 
filhotes de arara azul no Pantanal
Foto: Andrea C. Macieira

Dentro desse contexto ecológico de saúde, este projeto visa realizar o monitoramento sanitário dos filhotes de arara-azul-grande do Pantanal (Anodorhynchus hyacinthinus), através da elaboração de perfis hematológicos e bioquímicos, determinação da microbiota associada à orofaringe e cloaca e da prevalência de infecção por herpesvírus nesta população de vida livre, visando sua conservação.

A execução do projeto de pesquisa conta com o apoio do Instituto Arara Azul, Universidade Luterana do Brasil – ULBRA, Canoas RS e Criadouro Asas do Brasil, Novo Hamburgo RS.

Para maiores informações, entre em contato através do endereço eletrônico:
angelallgayer@uol.com.br 

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